Em um dos espaços mais simbólicos da história afro-brasileira no Centro-Oeste mineiro, a fé, a memória e a resistência voltarão a ecoar neste domingo, 24, às 9h. O histórico Cemitério dos Escravizados de Marimbondos, em Carmo do Cajuru, receberá mais uma edição da tradicional Missa Conga em Honra aos Mortos, celebração promovida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário que transforma dor em devoção e ancestralidade em permanência viva da cultura negra.
Localizado às margens da estrada que liga a sede do município ao distrito de Angicos, dentro da antiga Fazenda Marimbondo, o cemitério carrega séculos de história e simbolismo. Sem lápides ou registros formais, o espaço possui pequenas cruzes distribuídas pelo terreno e um grande cruzeiro branco ao fundo, tornando-se um verdadeiro museu a céu aberto da memória escravocrata brasileira. Segundo a tradição oral preservada pela comunidade, o local era destinado ao sepultamento de escravizados reconhecidos pelo trabalho realizado na fazenda, enquanto muitos outros eram lançados em valas anônimas.
A história do cemitério foi mantida viva principalmente pela oralidade. Os relatos foram transmitidos por Custódia, descendente de escravizados e ex-funcionária da Fazenda Marimbondo, que dedicou a vida à preservação das memórias de seus antepassados. Antes de falecer, no final da década de 1990, ela compartilhou seus conhecimentos com Maria Eunice Moreira de Souza, considerada uma das guardiãs da história oral do local e importante referência da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.
A celebração deste domingo promete repetir a atmosfera de emoção, espiritualidade e musicalidade que marca a Missa Conga há décadas. Sob coordenação da diretoria da Irmandade e de lideranças, os cantos sagrados do reinado e os tambores ancestrais se unem à liturgia católica em uma manifestação de fé profundamente ligada à identidade do povo negro. A programação será encerrada com um almoço comunitário.
Mais do que uma celebração religiosa, a Missa Conga representa um ato de preservação histórica e valorização da herança afro-brasileira em Carmo do Cajuru. Em cada canto, toque de tambor e oração, o Cemitério dos Escravos de Marimbondos reafirma sua força como símbolo de resistência, ancestralidade e permanência das raízes culturais que atravessam gerações.
A iniciativa conta com o apoio e incentivo da Prefeitura de Carmo do Cajuru.